sábado, 26 de maio de 2018

Minha sogra





      Nem sempre as relações entre genro e sogra são explosivas como tanto se apregoa por aí. Posso jurar que nunca carreguei a fotografia dela na minha carteira, mas até que nos dávamos relativamente bem. Desde o início do namoro, mais de quarenta anos atrás, ela ficava sempre de olho em nós, não dava folga, sempre vigilante, todo sábado à tarde o namoro era na sala da sua casa, segurando vela, assistindo televisão. Mas sempre lá pelas cinco horas, ela dava uma folguinha, indo ao mercado próximo buscar pão, demorava um pouquinho e na volta, antes de entrar, passava os dedos na veneziana da janela para avisar que estava chegando.
       Minha primeira “desavença” com ela aconteceu quando inventamos todos de ir para a praia, sogro, sogra, crianças, sobrinhos, no tempo em que era necessário levar desde fósforo, papel higiênico e, lógico, um milhão de cervejas. O carro ia estufado de tanta coisa, geralmente era preciso descartar algumas na hora de montá-lo. Ela no entanto adorava melancia e queria levar uma, daquelas que se comprava apenas no dia de finados, enorme. Ela colocava, eu tirava: punha de novo, eu sacava, até que numa bobeada minha, ao chegarmos no destino, lá estava a “maldita” fruta.

       Sempre brincalhona, era de sentar no chão e fazer bolas de chicletes junto aos netos. Há pouco tempo, com a saúde debilitada, necessitando do apoio de cuidadoras, fez para mim uma previsão “tétrica” de que iria viver até os cem anos de idade só para poder gastar toda a “minha herança”. E quando me aposentei então, com tanto tempo disponível, passei a ir ao rancho todo meio de semana onde ficava de 2 a 3 dias, pois ela sempre me questionava o que ia fazer no meio do mato sozinho, no fim do mundo.  Para a Solange ela argumentava, apimentando o fato: “Aí tem coisa, deve haver algum rabo de saia nesta história, melhor dar uma incerta lá”.

       Mês passado, minha filha, sua última neta, casou-se. Quando soube, mesmo atrelada a uma cadeira de rodas, após uma fratura no fêmur, passou a se empenhar na fisioterapia se negando a comparecer à cerimônia com o equipamento, até levou um pequeno tombo ensaiando os passos sozinha. No dia, mesmo não conseguindo o seu intento, ficou encantada com o ritual todo, sentou-se na mesa da família e curtiu a festa. Na hora do corte da gravata, perguntada se participaria, do alto da autoridade de seus 94 anos, decretou que queria cortar um pedaço da cueca do noivo: vontade atendida e reverenciada. Já no meio da festa, quando sentei-me ao seu lado, perguntou-me: “Sérgio, onde você arrumou tanto homem bonito assim para a festa”.

       No dia seguinte confidenciou que nunca tinha ido a um casamento tão bonito e que agora poderia morrer tranquila. E não é que no sábado passado ela cumpriu de verdade a sua premonição. Fique com Deus sogra.

Sérgio Lordello

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Encontro "Cotil 51 anos - Uma boa idéia"


Vamos nos reencontrar novamente


Data: 19 de maio de 2018
Local: Rua dos Metalúrgicos 245, bairro Chácaras Antonieta, Limeira-SP.- próximo ao Clube dos Metalúrgicos -mapa abaixo
Horário: à partir das 12:00 às 18:00 horas

Adesões: depósito no Banco do Brasil, agencia 6831-4, conta corrente 2120-2, em nome de José Antonio Bueno da Silva, no valor de R$ 75,00. RG-603.390.128-20. Até 02 de maio...

Importante: após o depósito mandar uma foto (arquivo) para o e.mail= jabsnine@gmail.com, acrescente o seu nome para confirmar a sua adesão


sábado, 3 de março de 2018

Crime Organizado S/A





Enquanto assistimos as novelas da reforma da previdência, trabalhista, as desmesuras da economia, um novo tipo de “indústria” cresce sem parar, obedecendo leis próprias e garante a prosperidade dos seus negócios no país: o crime organizado. É uma “empresa” estruturada, fortemente hierarquizada, departamentalizada, cujos interesses vão desde o tráfico de drogas dos diversos tipos, venda de armas, roubo à bancos, cargas, ou seja, tudo o que as leis consideram infrações. A maior delas (PCC) nasceu no início dos anos 90, dentro de um presídio de Taubaté, onde seus integrantes aprenderam noções de organização, táticas de guerrilhas, com presos politizados da época. Iniciou com o tráfico dentro dos presídios, atingindo a maioria deles.

       Passou a comercializar nas cidades do entorno, partiu para os grandes centros e formou uma rede grande de pontos de venda. Para incrementar mais os seus negócios, fez uma aliança com outra “empresa” do Rio de Janeiro (CV), que detinha o maior mercado de drogas do país nos morros cariocas, menos organizada, passando a fornecer “materiais” para ela apenas como atacadista. Ao mesmo tempo passou a prover armamento e know-how de organização a pequenas “firmas” de estados vizinhos e expandiu seus negócios até eles.

       Preocupada com o aumento da demanda, decidiu garantir o fornecimento de “insumos”, atravessando as fronteiras do Paraguai, Bolívia e chegando à Colômbia. A concorrência (CV) não gostou de estar nas mãos de um único fornecedor, rompeu a aliança e se aproximou de outro “provedor” lá da região norte (FDN) que detêm a Rota Solimões que traz a “matéria prima” do Peru, provocando batalhas desmedidas dentro dos presídios com muitas mortes para a manutenção de seus mercados.

       Detendo a maioria dos “insumos”, seu planejamento estratégico vislumbrou o forte mercado internacional herdado da retração dos colombianos e passou a investir aí. Aliás investimento nesse e em todas etapas anteriores é reforçado por outras fontes de renda como: assaltos a bancos, carros forte, venda de armas, permitindo essa grande expansão mesmo dentro da imensa crise dentro do país.

       Com sua rede imensa de pontos de venda por inúmeros bairros de praticamente todas as cidades ondo atua, a “empresa” consegue manter uma unidade de comando através de uma lógica empresarial ortodoxa: lucro a qualquer custo, não importando os meios: um comando que premia a fidelidade e a subordinação. Não tem problemas de inadimplência, pois o cliente fica devendo apenas uma única vez.

       E nós, aqui de fora, continuamos à assistir Big Brother, interessados no namoro do Neymar com a Marquezine, torcendo para a Beija-Flor, enquanto os bandidos de “paletó” (políticos) e os bandidos “sem rosto” partilham entre si as riquezas do país.


Sérgio Lordello

domingo, 4 de fevereiro de 2018

Nunca tive rancho na Cascata



       Não sei se foi denuncia, brincadeira ou sacanagem, mas recebi uma intimação para explicar porque não havia na minha relação de bens um rancho de pescaria situado no bairro rural da Cascata em Araras. Expliquei que não era meu e que só ia esporadicamente àquela propriedade de lazer, junto com amigos, raras vezes. Um dia e não era o “japonês da Federal”, mas vários agentes, com mandato de busca e apreensão foram ao local, recolhendo alguns equipamentos, documentos, possíveis vestígios de que eu seria o verdadeiro proprietário do imóvel.
       Tranquilo, fiquei esperando a emissão do Laudo de vistoria, para poder contestar as falsas hipóteses apresentadas. Semanas depois vieram os questionamentos que passo a relatar abaixo:
       - Por que o senhor mantém no guarda-roupa da suíte n°01 roupas de lazer, de trabalho, intimas, muitas delas com as iniciais SS (Sergio e Solange) bordadas? Também mantém uma caixa com roupas de cama, banho e produtos de higiene pessoal?

       - Por que encontramos na suíte n°02, também denominada na porta como “Senzala”, guardado lá um telefone celular rural, cadastrado na operadora em seu nome e em cujas contas, por nós levantadas, existem incontáveis ligações a cobrar para casa de familiares seus? Também deparamos com um aparelho pré-pago da Sky, cadastrado em seu nome cujas recargas são feitas sempre na lotérica perto de sua residência?
       - O que o senhor tem a dizer sobre o levantamento que fizemos no “Sem Parar”, em que seu automóvel, por meses à fio, passa semanalmente, ida e volta, em dias alternados, no pedágio da rodovia dos Bandeirantes em direção à Araras. Coincidentemente, nas referidas datas, no sistema de monitoramento implantado na rua em que fica a propriedade há imagens de inúmeras passagens de seu veículo?
       - O senhor não acha muita coincidência que questionados, a maioria dos moradores do local, desconhecem o seu nome mas apontam que o dono do referido rancho é um professor de Limeira, sendo que o senhor lecionou por 34 anos na cidade?
       - Que na estante da sala da propriedade encontramos inúmeras apostilas de sua autoria das matérias que lecionava, inclusive com provas corrigidas de anos anteriores? Também tem cadernos infantis de pintura em nome de suas netas. Que as contas de água, energia e IPTU são debitadas mensalmente na sua conta corrente?

       - Conclusão: tudo isso são sinais incontestes de que o senhor tem a posse do imóvel.
       Contrapus afirmando que o dono do rancho é um amigo e que eventualmente peço para levar a família, coisa rara. A presença de algumas evidências devem ter sido implantadas por inimigos meus, invejosos, mas mesmo assim, tais evidências não são provas e nem de longe demonstram ser minha tal propriedade. Sou apenas um simples professor, trabalhador, o mais honesto deles.
       “Qualquer semelhança com um caso real seria mera coincidência”.


Sérgio Lordello

sábado, 6 de janeiro de 2018

O incentivo que faltava


       O sinal de alerta soou quando o médico pegou nas mãos os meus exames com resultados escandalosamente ruins e disse: - “Estou muito preocupado com o seu prazo de validade, se não tomar uma atitude séria em mudar de vida, não sei não”. Lógico que eu sabia disso, envelhescente, obeso, vida sedentária, apaixonado por uma cervejinha com os amigos, apreciador de churrascos, sentia cada vez mais a dificuldade em vestir uma meia, subir uma escada, podar alguma arvorezinha no rancho. Mas como sair daquela inércia e passar a caminhar todas as manhãs, adotar uma dieta espartana, abandonar um pouco o automóvel? Como?
       Depender da turma do barzão, impossível o apoio, pois nem nas passeatas do impeachment o pessoal foi, preferiram assistir pelas redes sociais. Então, como Sísifo empurrando a pedra no alto da montanha, passei a fazer caminhadas diárias no Parque Cidade como um pesadelo interminável. Implorava para estar chovendo (nossa desculpa para não ir), sentia dores imaginárias para fugir à responsabilidade, Nos feriados, quando apenas um portão é aberto, nunca encontrava-o e voltava para casa.

       Então, num domingo, lá estava eu, como um masoquista, me lamuriando pelo triste destino de ter que fazer tudo o que não gosto, andando pelas alamedas do Parque, quando uma turma de mulheres “fitness”, escandalosamente saudáveis, passaram correndo por mim, umas trinta, e, obviamente, me provocando falta de ar, até passar também a professora, daí então a palpitação me fez procurar um banco para sentar, agua para beber. Como disse Mário Prata (cronista), nós envelhescentes, assim como os adolescentes, adoramos ver mulheres mais novas, mas diferente deles, apenas para olhar mesmo, pois o tempo é implacável.

       Depois conversando com outros frequentadores, soube que muita gente vai lá apenas por causa da professora e sua turma. Podem cabular o exercício nos outros dias da semana mas no domingo, chova ou faça sol, frio ou calor, sempre comparecem. Soube também que o Beto e o Marcelo tentaram se matricular na turma dela e obviamente foram recusados pois é uma classe apenas feminina, tipo “homem não entra”, mas só por curiosidade ela lhes perguntou que tipo de exercícios seria importante para os mesmos e eles responderam na maior cara de pau:- “Nenhum, apenas queremos ficar sentados num canto vendo você comandar suas pupilas”.

       Mas pior aconteceu com um secretário do prefeito que eventualmente faz caminhadas lá aos domingos: sempre zeloso, fica anotando pequenos problemas do local para cobrar dos responsáveis, e num dia deparou com o som vindo do carro da personal, tirou fotos, anotou dados até as alunas o questionarem sobre o problema. Então nós ficamos sabendo do “embaraço” causado a ela, já o cercamos e lhe demos um ultimato: - “Você pode questionar o que quiser aqui mas não mexa com a nossa musa”.
       Atualmente, depois de perder alguns quilos, estar em forma, melhorar meus índices médicos, com qualquer tempo, lá estou, feliz da vida, fazendo caminhadas e esperando o domingo chegar para reverenciar ao “incentivo que faltava”. E toda a turma do Barzão passou agora a se exercitar também.

      

Sérgio Lordello


sábado, 9 de dezembro de 2017

Rotatória do Enxuto


       Primeiro seria importante deixar bem claro que não estou opinando em nome do Movimento Rotatória Cotil/FT/Unicamp, mas sim emitindo a minha opinião própria. Como se sabe esse grupo, a mais de 20 meses tem tentado sensibilizar autoridades sobre o problema de insegurança de pedestres, ciclistas, motociclistas, veículos que se aventuram naquela região em pleno centro de Limeira. É claro para o Movimento que melhorias ali dependem de duas esferas: a estadual e a municipal.
       Neste tempo todo o grupo tentou de todas as maneiras ser recebido pelo governo de estado através da Artesp, responsável direta pelo gerenciamento de ações que possam ser desenvolvidas naquela rodovia, seja pela concessionária que cuida da pista atualmente, mas que tem suas ações dependentes da primeira; também diretamente na Agência com dezenas de e-mails, contatos telefônicos, intervenção de deputados estaduais da região; procurou lideranças políticas da cidade, principalmente aquelas que tem relacionamentos com o governador, mas nada foi capaz de sensibilizar a Artesp dentro de sua redoma para que pudesse receber um grupo de cidadãos trabalhadores que vivem diariamente o problema que visualizam os acidentes, as vítimas regularmente. Não conseguimos nada, lá tudo permanece do mesmo jeito, só crescem as estatísticas e o número de desculpas para não nos atender.

       Já a nível municipal fomos recebidos pelo Prefeito no início deste ano onde sugerimos uma série de pequenas intervenções no entorno da rodovia que poderiam melhorar as condições de segurança dos usuários, soluções de baixo custo, de rápida implementação. Junto com o secretário de Mobilidade Urbano prometeram estudos, medidas mesmo que paliativas poderiam amenizar os conflitos até que o governo do estado assumisse a sua responsabilidade. Infelizmente até agora não se viu nenhuma ação feita pelo poder público municipal neste período, apenas a deterioração das elaboradas anteriormente.

       O que o Movimento não entende é que essa briga deveria ser de todos e não apenas de um grupo de cidadãos comuns que conta apenas com manifestações de apoio da população, o que é muito pouco para os olhos de um político. Na verdade temos uma rodovia estadual que adentra no perímetro urbano do município, dirigida por um órgão estadual que tem apenas uma visão macro de uma estrada e não se preocupa com pontos localizados de conflitos e o município fica com um gargalo imenso que interfere diretamente no planejamento urbano, traz consequências para o desenvolvimento da cidade. Seria imprescindível que pelo menos os governos tivessem e mostrassem como ficaria a situação num futuro, já que, se realmente quisessem, bastaria a prorrogação por um prazo muito curto do contrato da concessionária para estar já tudo resolvido financeiramente. Falta boa vontade de todas as partes.


Sérgio Lordello


quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Apresentação do "Jogando mais conversa fora"



       Este meu segundo livro, Jogando mais conversa fora, é uma continuação do primeiro e dividido em três partes: a primeira contém artigos publicados no Jornal de Limeira; a segunda são os já publicados no jornal Tribuna de Limeira e a terceira seria para crônicas de cunho pessoal que deveriam ser inéditas mas que também foram, em sua maioria, publicadas na Tribuna de Limeira também. Isto mostra que tais jornais sempre mantiveram uma linha editorial de independência, liberdade e respeito com os seus colunistas.

       As histórias relatadas nas crônicas são simplesmente um resumo de um sem número de conversas com os amigos, colegas, familiares nos diversos ambientes em que nos encontramos pelos caminhos e situações da vida. Seis espaços alimentaram muitos dos assuntos que relato aqui: o Cotil-Unicamp, onde lecionei por 34 anos e formei uma cadeia muito grande da amizades importantes; o Barzão (Bar São João) e o Bar do Toco, palcos de histórias inacreditáveis, gozações fantásticas e relatos delirantes; a comunidade rural da Cascata em Araras formada por ribeirinhos e rancheiros, lá foi possível encontrar-me com a natureza, fazer amizade com pássaros, pequenos animais, a flora e, principalmente ter um encontro com pessoas simples mas de corações enormes, na sabedoria e nas curiosidades. Também colaborou de forma imprescindível, o picadeiro do circo chamado Brasil, onde os políticos forneceram um sem número de trapalhadas, safadezas, aflorando a indignação na maioria do povo brasileiro. Finalmente a família, fonte de inspiração em temas de ternura, de paixão, alegria e de convivência.

       Também aprendi neste tempo a dar maior importância ao gênero crônica, pois sempre a tinha como parte da literatura menor e só após assistir uma palestra com um dos meus ícones Ignácio Loyola Brandão quando o mesmo a definiu como o berço do cotidiano em que os historiadores irão buscar o dia a dia, os costumes, os vocábulos usuais, as expressões, os hábitos, tradições de uma época. O interessante é que muitas vezes apenas uma imagem, uma frase, um gesto, um instante, proporciona temas, histórias, que podem sensibilizar o nosso leitor, remetendo-o a uma cena vivida anteriormente, uma lembrança esquecida na vida ou tomar como suas as palavras sobre a indignação diante deste nosso país tão sofrido.
       Escrever para as pessoas faz bem para a nossa alma.


Sérgio Lordello