sexta-feira, 11 de maio de 2012

Não deveria ser deste modo

(giovannagiovanelli.blogspot.com)

         Ela chegou assim sem avisar. Lembro-me de certa movimentação nos bastidores da família, correria para um lado, para outro e nada de me dizerem o que estava acontecendo. Eu chegava e era um tal de mudarem de assunto, saírem para compromissos “inadiáveis”, até que não teve mais jeito e abriram o jogo.
 Confesso que não foi um dos momentos mais agradáveis da minha vida. Todo um planejamento, até então seguido à risca, casa feita na medida, aquele sonho de ir morar na praia depois da aposentadoria e de repente as coisas poderiam mudar. Breve eu seria avô, pode isso?
Na maternidade foi meu primeiro encontro com ela. Enquanto as avós procuravam semelhanças com familiares, eu não conseguia perceber nada. Na verdade todo recém-nascido, para mim, tem cara de joelho, são todos iguais. Mas já com cinco meses levei-a numa reunião de professores na escola, com direito a sacola, mamadeira, roupinhas e chupeta. Fui salvo por uma colega na hora de trocar a fralda.
Depois, conforme foi crescendo, passou a ser minha companheira em todos os lugares que eu ia. Supermercado, café com amigos, colônias de férias com a avó, clube, restaurantes.  Até no rancho fomos os dois uma vez, quando ficamos dois dias pescando, cozinhando e brincando.
Duas cenas não me saem da memória: ela pequena ainda e assistíamos ao filme do ET. Eu ia comentando as cenas para que entendesse e, no final, quando ele (ET) se despede da mãe do Eliot, olhei para ela e seus olhos estavam inundados de lágrimas. A outra cena foi a expressão de felicidade em seu rosto, no seu ultimo aniversário, quando combinei com o André que pegaria carona no seu trenzinho que iria buscá-la na saída da escola, junto com seus colegas. Eu estava vestido de palhaço com um saco de balas na mão.
Hoje ela tem um ritual. Quando vai dormir exige que eu vá ao pé da escada, no degrau certo, então me dá um abraço, um beijo e diz “boa noite”. Torço para que ela, ao crescer, guarde estas recordações, assim como me lembro do meu avô Lordello cuidando de seus pássaros cantadores, ou dos piões que fazia em sua pequena marcenaria.
 Porém o problema é que os degraus da escada estão acabando e eu não sei direito brincar de gente grande.

Sérgio Lordello




2 comentários:

Anônimo disse...

Que lindo, Sergio! Você é um super-avô! Tão amoroso! Com certeza suas netas levarão sempre em suas vidas lembranças boas suas!

Bel

Crônicas, fotos e cozinha disse...

Obrigado, Bel