sábado, 4 de março de 2017

A certeza da vida



        - “Se vocês forem continuar com este assunto, nós nos levantamos e vamos embora” – disse o André na mesa do bar do Toco, acompanhado pelo Balanga, que dias antes tivera a sua morte anunciada nas redes sociais, numa brincadeira duvidosa do amigo Bitinga.

        Na verdade, a conversa era apenas entre o Rigon e eu, quando ele descreveu a doença que levou seu pai à morte tempos atrás. Por uma infelicidade, ele ouvira inadvertidamente os prognósticos do médico em relação ao seu futuro e o mesmo chamou o filho para tomar providências quanto as formalidades que teriam que ser tomadas antes e após o evento final. O que mais o intrigou foi a lucidez e a tranquilidade do pai diante da situação “crítica” e “terrível”, segundo ele, que enfrentava.

        A vida é maravilhosa por ser composta de uma série de eventos sequenciais que vão nos preparando para vivê-la de forma intensa em cada etapa. Desde a concepção, geralmente por desejo de dois seres, em que o feto vai se desenvolvendo em simbiose com a mãe, usufruindo as mesmas sensações, percepções até poder sair para uma vida própria. A infância de descobertas na comunicação, no seu território, na confiança das pessoas, na busca de seus espaços rumo a sua independência.

        A vida é sabia ao incrementar nas pessoas a ousadia na juventude para que elas busquem testar os seus limites, sejam eles físicos, cronológicos, de conquistas, mas sempre ensinando, ao mesmo tempo, quais serão também as suas limitações. Também incentiva a busca por parceiros com os quais se relacionem para que, da mesma forma que seus pais, participem da continuidade da vida. Até esta etapa, a “única certeza de nossas vidas” é relegada a um plano tão distante, tão longínquo que sequer passa pela nossa memória. A sensação de imortalidade está tão presente, tão arraigada que sempre levamos em conta outras possibilidades em nossos planos, em nossas ações.

        Mas a vida, dentro da sua perfeição, vai nos dando pequenos sinais, muitas vezes imperceptíveis, de que não somos imortais, que limitações sempre existiram, mas que vão se pronunciando à medida que nossa idade vai avançando. Pode ser na forma daquela precisão nos gestos não mais atingida, naquele fôlego que não é mais o mesmo, na memória que resvala as vezes. Com o tempo estes sinais vão ficando mais claros seja através das pessoas queridas que nos deixaram no meio do caminho, no nosso corpo que não responde prontamente aos tratamentos. Aos poucos vamos tomando ciência que nosso tempo vai se esvaindo e que o tal dia chegará, as nossas contas sobre os dias que ainda nos restam ficarão amplamente visíveis, mas nunca temos certeza e sempre queremos que ele fique distante.

        Portanto jovem amigo Rigon, não se preocupe, a vida na sua plenitude ensinou as verdades a seu pai e deu-lhe a tranquilidade e a sapiência para ele encerrar com dignidade a dele. Gostaria também de aprender como ele.


Sérgio Lordello

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