domingo, 20 de novembro de 2016

Ingenuidade pueril


 Marcaram o encontro no portão do bosque da cidade, apesar dos pais os terem levado às suas escolas naquela manhã, ambos saíram escondidos pelo portão e rumaram para cumprir o combinado. Muito jovens ainda, namoravam já há algum tempo, cumpriam à risca as regras do namoro impostas pelas famílias: na rua até tal hora mesmo que precisassem deixar o filme no meio; sempre com um dos irmãos por perto; despedidas discretas e rápidas no portão.

- Por que não nos casarmos então?
Foi o argumento dela para tentar salvar uma relação especial de descobertas depois do “acidente” da noite anterior. Na verdade estava mesmo para acontecer, era apenas uma questão de tempo. Os dois cada vez mais apaixonados se completavam na maneira de enxergar o mundo, na forma de se respeitarem, no carinho com que se dedicavam e daí os beijos foram ficando mais ardentes, os abraços mais apertados, cada vez mais demorados e então, naquela noite, que os pais dela demoraram em chamá-la, ele avançou o sinal, não respeitou as regras que haviam acordado e ela só se apercebeu depois de certo tempo de desfrute e mandou-o embora imediatamente.

Ambos desconheciam esse jogo, numa inocência curiosa, adolescentes ainda, praticavam o que se lia nos romances de literatura da escola, quanto daquelas ficções aos poucos se tornavam realidade na vida dos dois. Mas estava impregnado nas mentes juvenis deles as regras muito claras do jogo: o vestido branco; a primeira noite; a castidade dela. Ele mesmo já cansara de ouvir dos amigos: “Pô cara, você nunca sai conosco para uma noitada de farra”.
Na beira daquele lago, sentados num banco duro de concreto, os dois jovens procuravam argumentos para se justificarem com o intuito de continuarem juntos, tinham a dimensão exata do risco que correriam desse envolvimento se tornar muito sério para eles que estavam procurando ainda um caminho na vida, iniciando a busca por uma profissão. Sabiam agora que as promessas feitas ali não seriam cumpridas, nada que prometessem um para o outro conseguiria deter a curiosidade em se conhecerem aos poucos como homem e mulher. O melhor seria cada um buscar o seu caminho. A maior prova deste amor talvez fosse mesmo à separação.

Mas como conciliar a distância com a saudade cada vez mais crescente? Como esquecer as juras trocadas no portão de entrada Como não se lembrar dos carinhos, dos afagos, das lágrimas consoladas. Como sufocar a curiosidade quase infantil pelo ser de outro sexo tão próximo, mas tão distante ao mesmo tempo? Como harmonizar o desejo crescente na turbulenta adolescência com as barreiras morais pregadas pelas famílias?

 Um telefonema solitário numa tarde de sábado apanhou-o de surpresa. Encontraram-se na casa dela, os pais ausentes, primeiro mataram a saudade destes poucos dias de ausência, depois confidenciaram a falta que cada um sentiu do outro e então, num acordo selado na inocência de suas mentes ingênuas, de uma forma até pueril, os dois foram aos poucos descobrindo as sutis diferenças no formato de suas anatomias, as sensações que provocavam em cada corpo um toque mais atrevido, um carinho mais ousado, a diminuição da timidez ao se exibirem um para o outro, enfim conheceram-se até os limites em que as suas inexperiências e as consciências permitiram.





Sérgio Lordello


2 comentários:

MaRy disse...

Uauuuu... Adorei!

MaRy disse...

Uauuuu... Adorei!