quinta-feira, 21 de abril de 2016

Uma pessoa impar

Uma homenagem merecida - dois anos sem o Zacha





        Não é possível. Na última sexta-feira fiquei pasmo quando soube que finalmente ele assinara o seu pedido de aposentadoria. Depois de muitos anos convivendo com ele, sempre pensei que nunca deixaria as salas de aula, que seria um daqueles que só sairiam por imposição da idade. E olha que sua carreira iniciou-se no final dos anos sessenta no Pró Cotil, passou pelo Senai, rede estadual, Acadêmico e Cotil. Foi agraciado com troféu Fumagalli e premiado pela Câmara Municipal de Limeira.
        Por toda a sua história, eu diria que é conhecido por mais da metade da população de Limeira e região. Em todo lugar que íamos (colegas do Cotil) em nossas férias ou em escapadas nos feriados, sempre tinha alguém que o reconhecia. Foi assim num julho qualquer, na barranca do rio Paraná, do lado Mato Grosso, estávamos tomando uma cervejinha, quando um barco passou e ouvimos alguém gritar o seu nome em alto e bom som. Da outra vez foi aqui pertinho, na Cascata, chuva que Deus mandava, e de repente entrou no boteco um grupo de quarentões de Rio Claro, todos ex-alunos dele, saudando-o.

        Não sei ainda se foi exagero, mas o Paulo jura que é verdade. Em uma das suas viagens à Europa, há quase oito anos atrás, em plena Praça de São Pedro, no Vaticano, após a benção do papa João Paulo II, ele diz que viu Sua Santidade acenando e escutou dos alto falantes do Palácio:
        - Brasiliano, brasiliano, vieni qui. Dov'è  Zaccharias, perché le mie sorelle attendono notizie di lui. (Brasileiro, brasileiro, venha cá. Onde está o Zacharias? Minhas freiras esperam por notícias dele).

        Exatamente, Luiz Carlos Zacharias. Uma pessoa ímpar, ou, eu diria em sua própria linguagem profissional, um número primo, único. Sempre solícito, ministra mais aulas substituindo colegas que as suas próprias. Certa época assumiu a direção da escola, cuidava da parte pedagógica e preocupava-se muito com os alunos. Quando eles aprontavam alguma, prontamente requisitava-os para uma conversa e ficava horas dando conselhos, chamando a atenção deles, antes de comunicar aos pais. Pois saibam que sua estratégia deu certo, pois o que os alunos menos queriam era permanecer um longo tempo na sua sala ouvindo os seus sermões e todos então passaram a se comportar.

        Ele tem um apego muito grande por suas coisas, dificilmente se desfaz das mesmas. Por exemplo, a sua velha Brasília amarela ainda continua estacionada no fundo do seu quintal, coberta, deixando o tempo corroer toda sua lataria. Mas curioso mesmo são os seus galos. Criação que começou por acaso com um frango que ele não quis se desfazer, daí apareceram outros, que não quis matar e o resultado é que hoje o seu plantel reúne 12 galos e somente 4 galinhas poedeiras. Elas, segundo dizem as más línguas, já elaboraram um Boletim de Ocorrências, por assédio e trabalho escravo, invocando a Lei Maria da Penha contra os galos. E ele foi incluído como co-responsável direto.

Sérgio Lordello

Professor

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