segunda-feira, 7 de março de 2016

O par de tenis com dois pés direito


Wilson Roberto Pereira – Wilson “Bauru”
Autor de três livros:
                - O dia do diamante negro
                - Falando sério
                - Seguindo em frente
       
        Naquele tempo era obrigatória a presença nos desfiles dos dias 7 de Setembro. Todas as escolas participavam, o povão ia todo à praça para assistir a comemoração.
        Havia realmente uma consciência cívica que os bandidos eleitos para os governos federal, estaduais, municipais, câmaras de vereadores, assembleias legislativas, congresso nacional conseguiram reprimir.
        Hoje se trata de motivo de piada o sentimento cívico de realmente o cidadão considerar a pátria como mãe, a respeitar as autoridades constituídas, diante de tantas fraudes e corrupção que diariamente passa a conhecer, com motivos de sobra para indignação e revolta diante da impunidade que fica provada diante de cada malfeito dos homens públicos. Mas naquele tempo se sentia orgulho por poder desfilar.
        Até porque, como estudantes, acreditávamos ser verdade tudo o que aprendíamos em História do Brasil...
        Pensando nisso, dá pena de saber que os estudantes de hoje são insistentemente obrigados a aprender coisas maravilhosas desse lixo instalado no poder, como se estivéssemos tratando de heróis nacionais, portadores de qualidades que nunca tiveram, de bravos lutadores pela democracia quando se tratam de terroristas cuja intenção nunca foi a democracia, mas uma ditadura comunista no Brasil.
        Tantas mentiras ainda deverão promover um analfabeto bêbado aos altares da purificação, e a quadrilha que o cerca transformadas em serafins e querubins, dignos de louvor.
        E, pior, se nossas pobres crianças não repetirem as mentiras ensinadas nos bancos escolares, não passarão de ano.
        Mas, esqueçamos as verdades de hoje. Fiquemos nas lembranças de um passado que merece ser a todo o momento relembrado...

        Usávamos um uniforme branco feito especialmente para a ocasião, porque não havia outra oportunidade para se usar uma calça branca. Os tênis brancos eram comprados também para o primeiro uso no dia do desfile.
        E não opção de calçado, limitando-se os tênis a duas marcas populares para a educação física (Bamba e Conga). E para os desfiles, quem tinha um recurso mais farturento poderia comprar um tênis Rainha. Os demais 98% compravam Conga branco. E o pessoal do Castelo Branco se reunia para formar o desfile, na Rua Santa Cruz, perto da Escola Industrial (hoje Trajano).
        Eu me encontrava já por perto do lugar onde deveria ficar, quando chegou o Peninha andando de forma estranha, mais parecendo um papagaio que um ser humano...

        O papagaio não anda com os pés para dentro, quase pisando um com o outro? Pois o Peninha vinha mais ou menos nesse estilo... o pé direito pisando certo  e o esquerdo procurando se encontrar com o direito...
        (???) Ficamos tentando adivinhar o que estava acontecendo com ele...
        Chegou do meu lado, falou bem baixinho:- Você viu por aí alguém com os dois pés esquerdos?
        Foi quando notei que ele calçava os dois pés direitos... Enquanto eu gargalhava ele explicou que deixou para comprar os tênis no dia anterior, na loja do Pileggi , onde a maioria comprava, e que lá chegou quando estava fechando, às 18:00 horas. E que pediu os tênis n° 40, a moça queria que ele experimentasse, mas ele disse que não precisava tirar da caixa... Deu no deu.
        Pelo que sei, até hoje ele não encontrou o outro pé.


Wilson Bauru
Livro – “O dia do diamante negro – Fragmentos de uma vida irreverente levada à sério” – 2012 –




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