quinta-feira, 17 de março de 2016

As rosas também falam





Sérgio Lordelo

Cronica do livro do autor: “Jogando a conversa fora” -


        Fica difícil para nós homens entendermos o que se passa dentro de uma loja de roupas femininas. Vejam bem: elas ficam lá dentro, a maioria das vezes, mais de duas horas para comprar apenas uma blusinha. Algumas delas passam por lá todos os dias, nem que seja apenas para tomar um simples cafezinho. Se brigarem com os filhos ou qualquer outra desavença dentro de casa, têm que passar por lá e comprar, nem que seja apenas uma presilha de cabelo. Troca de carro, discussão com a sogra, um quilo a mais ou a menos no peso e, principalmente, por alguma negligência nossa, como maridos, são motivos mais que suficientes para uma visitinha.
        Na loja da minha esposa, por imposição delas, homem não entra. No máximo até o caixa para pagar as contas e olhe lá. Eu então, nem da porta posso passar. No entanto, por força do ofício, um casal de representantes se fazia regularmente presente para apresentar as novidades, os lançamentos e as tendências para a próxima estação. Era um casal jovem, bonito, alegre e, apesar de casados já há alguns anos, demonstravam muito carinho um para com o outro. Falavam dos jantares que faziam a dois, dos barezinhos que frequentavam e das boates em que dançavam. Coisas só de recém-casados.


        Elas ficavam encantadas com os relatos e quem levava sempre a pior éramos nós, os maridos. Como podíamos ser tão insensíveis, tão descuidados, tão relapsos?
        Pois bem, como devedor confesso dos meus deveres de marido, quis fazer uma homenagem especial a minha esposa no dia do seu aniversário. Pesquisei, perguntei, procurei algo que pudesse me redimir de tanta negligência, até que descobri.
        No dia, em plena tarde, a loja repleta de clientes, ainda por cima durante uma “promoção”. Pessoas buscando roupas, gente pagando, outras no vestiário, muitas esperando a marcação das peças. Coincidentemente lá estava também o casalzinho, ele dando palpites nas escolhas dela.

        Então, inesperadamente, entrou o Sérgio Gabriel com um buquê de rosas vermelhas na mão, daquelas colombianas, enormes. Abriu a sua maleta, montou o saxofone e iniciou um lindo concerto de músicas românticas em homenagem à aniversariante. 

       Foi um momento em que não se entendia o que estava acontecendo: umas choravam, outras suspiravam, algumas boquiabertas e até alguns gritinhos de histeria foram ouvidos. Então alguém deu por falta do casal e ao procurá-lo, encontrou-o do lado de fora da loja e viu uma cena insólita: ela com o dedo em riste dando uma dura nele por nunca ter feito algo parecido. Depois deste episódio, o casal voltou algumas vezes, mas não falou nunca mais de suas peripécias amorosas.
E eu me senti o próprio vingador de todos os maridos.


Sergio Lordello

professor 


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