sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

O dia do diamante negro



Wilson Roberto Pereira – Wilson “Bauru”

Autor de três livros:
  - O dia do diamante negro
  - Seguindo em frente
  - Falando sério

             Dia de verão dos mais pesados, ano de 1982, em Campinas-SP.
         O local: sede da Transo – Transportadora de Óleos Ltda, na parte superior do prédio da Av. Santa Izabel, em Barão Geraldo, onde exercia a função de diretor administrativo.
         Os funcionários todos já haviam saído para o almoço. Só deveriam retornar entre 13:15 e 13:30 horas.
         No térreo do prédio funcionava uma lanchonete com o nome de “Baco & Glutão”, onde se homenageava com todo o entusiasmo os dois. Principalmente o primeiro...
         Antes de sair, a costumeira “parada técnica” no bar, onde certamente pela própria “atmosfera” do ambiente, ocorreu a ideia de aprontar mais uma  com as meninas. Pedi um chocolate Diamante Negro, principalmente por ser crocante – característica que deveria melhorar a performance do plano.
         Ao invés de continuar o caminho para casa, voltei ao escritório, já com o chocolate desembrulhado, apertado na mão direita, esperando que amolecesse o máximo possível.
         Direto ao toalete das meninas, ao vaso sanitário. O trabalho começou por sujar com três dedos os azulejos que ficavam logo acima  do acento, à esquerda do vaso.
         Na continuação, o trabalho consistiu em sujar a parte interna da bacia, até a borda, continuando na parte externa do assento, onde foi limpa com a palma da mão.
         Verdadeira obra prima do artesanato “barroco” (pela consistência do material usado).
         Mãos lavadas, correr para o almoço em casa, na cidade universitária.
         Lá pelas 13:20, ao chegar para o trabalho da tarde, nos deparamos com a maior aglomeração das meninas (eram 5 ou 6) diante do toalete feminino, conforme se podia esperar.
         Com a maior cara de pau, fomos logo perguntando o motivo daquela algazarra, demonstrando verdadeira preocupação com a ordem e a disciplina da casa. A reação, igualmente previsível foi o convite para ver o que haviam feito no intervalo do almoço.
         Com todo o cinismo necessário nessa hora, fomos abrindo espaço entre elas, pedindo evidentemente, licença para passar. Parei bem de frente para o quadro que lhes estava causando tanta indignação. Confesso que realmente impressionava a imundice.
             Por alguns minutos, o silêncio...
          Então, como o momento exigia, o chefe tinha que tomar uma decisão.
         Acompanhado pelo olhar atento de todas, com toda a possível seriedade e cinismo, identifiquei um pedaço mais saliente daquela massa marrom, e, com os mesmos dedos polegar e indicador direitos que tão úteis foram no preparo da cena, peguei esse pedacinho mais vistoso do azulejo.
         Ainda com a cara de indignado, levei os dois dedos à boca, e após chupara com gosto a substância que já se encontrava consistente àquela hora, olhei para todas e exclamei:
         - “E é merda mesmo!...”
         Desnecessário descrever o que foi a reação das meninas. Muito pior que a suposta substância deliciosamente provada foi o estrago que elas fizeram. Principalmente duas que tinham o estômago mais fraco.
         Evidentemente tratei de lhes contar o que havia acontecido. Recebi o seu perdão, mas de uma ou outra essa decisão de desculpar não foi imediata, e certamente nem foi no mesmo dia.
         Mas tudo acabou bem. Duas delas (Eleuza e Maria) me convidaram para padrinho de casamento. Ainda hoje me orgulho disso.
         Quanto a brincadeira, até hoje, passados tantos anos, tem servido para alegrar os encontros com os antigos sócios, os companheiros de trabalho e muitos outros que nem nos conheciam naqueles tempos, mas que acabaram sabendo o que aconteceu nas conversas com amigos comuns.
         O importante é que hoje, certamente, não existe mais a necessidade de pedir perdão a ninguém pela brincadeira. Afinal, depois de tantos anos, até as mais sensíveis encontram nessas lembranças um motivo para sorrir.
         Acredito que tenha valido a pena.

Wilson Bauru

Livro – “O dia do diamante negro – Fragmentos de uma vida irreverente levada à sério” – 2012 – 

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