sábado, 19 de dezembro de 2015

No novo tempo, apesar dos perigos


         A música do Ivan Lins soa nos meus ouvidos agora, remetendo-me aos tempos de estudante dos anos setenta, quando estávamos sob o jugo dos militares, pressionados pelo famigerado AI-5, que tinha o claro objetivo de silenciar, extinguir e esterilizar as lideranças da época. Desiludido com o baixo empenho de alguns professores e da inércia da direção em se posicionar, liderei uma assembleia dos colegas cobrando melhoras no ensino, quando decidimos fazer uma avaliação dos mestres para eles se estimarem quanto ao grau de satisfação com suas aulas. A maioria deles gostou de proposta, mas os problemáticos: não. E um deles passou a me perseguir sistematicamente, colocando-me nas provas ao lado de sua mesa, o exame final, fiz na secretaria e o anuncio da minha reprovação na sua disciplina, ele o fez de forma solene para os demais membros da classe sem que uma só voz se levantasse em minha defesa ou solidariedade.
         Ontem havia a repressão para calar as pessoas, hoje existem os políticos de todas as classes, de todos os credos, de todas as raças, de todos os gêneros fazendo esvair a esperança, os sonhos e os devaneios dos cidadãos. Eles, sorrateiramente, se reúnem nos porões do poder, trocam telefonemas na noite, manipulam as crenças da população, planejam ações de longo prazo para se eternizarem no poder. Mas hoje é ainda pior, pois em nome deste projeto desdenham dos eleitores, se permitem zombar e enganar o povo de forma descarada e deslavada.
         Uma presidente que mente para conseguir se reeleger; um presidente da Câmara que usa de todos os subterfúgios para não abrir um processo de cassação com provas materiais de culpa; um presidente do Senado envolvido em operações de arrecadação de propinas; uma oposição conivente fazendo jogo sujo para resgatar o poder; uma Comissão de Ética, onde o que falta é a própria ética; um poder sabotando o outro contribuindo para embaralhar o pensamento da população.
         O que não se pode deixar é o povo perder         a esperança e a classe política lá é especialista nisto, dizendo não saber de nada nunca, buscando os pontos e as vírgulas das leis para prorrogar mandatos, dando consultorias de conteúdo duvidoso, negando enriquecimentos fantásticos  Esta mesma população que se beneficiou de uma maior renda, de uma maior conforto, vê-se hoje não conseguindo cobrir o mês com seu salário ou até mesmo sem ele.
         “Pra que nossa esperança seja mais que a vingança
Seja sempre um caminho que se deixa de herança”


Sérgio Lordello


3 comentários:

Marco Toledo disse...

Parabéns pelo texto

Marco Toledo disse...

Parabéns pelo texto

Luiz Ricardo Bastos disse...

Muito bom o texto. Lúcido e objetivo, parabéns!