quarta-feira, 17 de junho de 2015

O discurso que não fiz


         A professora Andréa Bombonati faz um trabalho fantástico com seus alunos do Cotil, dividindo as classes em grupos, fazendo-os pesquisarem sobre os gêneros literários e cada equipe deve apresentar o resultado para todos os demais colegas. No dia, a molecada tem que vir formalmente trajada, convidar um padrinho para acompanhá-los e após receber as críticas e elogios dos professores presentes. No final do ano passado fui convidado por um grupo para apadrinhá-los no evento e por incrível coincidência o tema deles seria “crônica”.
         No dia combinado, eles foram impecáveis na apresentação, aplaudidos, então fui convidado para comentar e tecer palavras de incentivo à leitura, à escrita, tentando sensibilizá-los sobre a importância de tais atos em suas vidas. Mas o idiota aqui, num momento de pouca lucidez, de estupidez mesmo, fez um discurso como se fosse um jogador de futebol dando entrevista no final de uma partida, ou seja, só clichê, sem conteúdo, até do português me descuidei. Ou seja, não disse nada sobre coisa nenhuma.
         Depois, muito chateado fiquei me remoendo por ter perdido uma oportunidade de ouro de ter-lhes falado sob os efeitos que um texto faz (ou pode fazer) nas pessoas que os lêem. Gostaria de ter-lhes contado que não precisam ser magníficos como os grandes cronistas que citaram como exemplo, podem se espelhar neles sim, mas não precisam ter a mesma sapiência, sagacidade, perspicácia, alegria, basta escreverem com o coração, buscarem assuntos dentro de suas almas, praticarem a empatia como forma de atingirem os seus leitores.
         Gostaria de ter-lhes falado que também alguém simples, muito distante daqueles ícones, até com um português com muitas limitações, mesmo através de textos pouco rebuscados também pode impressionar seus leitores, causar emoção com o tema ou ainda comove-los com os personagens envolvidos. Gostaria de ter-lhes discorrido que uma pessoa comum como eles, muito próxima a eles, com a qual tinham acesso todos os dias, disponível nos corredores daquela escola a todo o momento, escrevia textos no Jornal de Limeira quinzenalmente e obtivera vários testemunhos dos efeitos que tais crônicas tinham causado as pessoas, que de alguma forma lhes trouxeram recordações da infância, lembranças de familiares, histórias parecidas com que estiveram envolvidos, fatos acontecidos com seus times de futebol, ou mesmo as mentiras contadas num boteco que lhes traziam reminiscências. Nenhuma delas enalteceu a qualidade dos textos, ou a construção das frases, ou apontou os erros gramaticais ocorridos. Todos os que elogiaram se inseriram no texto de alguma forma e mesmo os que criticaram o foi por divergências no campo das idéias.
         Gostaria de ter-lhes dito que escrever é muito bom, expor as idéias é melhor ainda e nos faz crescer, mas naquele dia as palavras driblaram a minha mente.


Sérgio Lordello



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