sexta-feira, 11 de julho de 2014

Somente para maiores de trinta anos



         Porque senão, os demais leitores, me chamarão de louco ou que escrevi o artigo numa mesa do Bar do Toco. Os fatos que vou relatar fizeram parte dos nossos cotidianos nos anos oitenta e noventa. Era simplesmente o nosso dia a dia, mas os mais jovens nem imaginam pelo que passamos na época de inflação no país.
         Quarto dia útil de todo mês, tínhamos uma viagem marcada para Campinas, numa visita necessária ao Carrefour para a compra doméstica mensal. Tínhamos um vale da Unicamp que seria descontado no próximo pagamento e adquiríamos tudo o que iriamos consumir no período. Não dava para ser em outro dia, pois os preços poderiam subir. Não sabíamos os preços das coisas, pois o valor das mesmas variava no mesmo dia. Para adquirirmos uma caixa de fósforos não tínhamos ideia de quanto teríamos que desembolsar.
         Era uma batalha diária para tentar preservar o valor do nosso salário. Em 1993 a inflação anual atingiu 2.477 % por exemplo. Conforme afirmou o ex-ministro Maílson da Nóbrega na revista Veja desta semana: “se com 100 reais o consumidor podia comprar 8 quilos de filé, mas trinta dias depois dava para comprar apenas 1 quilo de carne”.
         Na época havia uma aplicação conhecida como “Overnight”, onde você todo dia tinha que ir ao banco para aplicar o seu saldo por uma noite, era preciso resgatar e aplicar novamente. Qualquer dinheirinho que sobrasse trocávamos por dólar, todo mundo comprava e quando era uma reserva para um negócio futuro, qualquer micro empresário tinha uma gaveta particular no cofre do banco para guarda-los.
         Na loja da minha esposa, por conta de um Natal “mais gordo” em vendas e sabendo que as compras de roupa de inverno necessitariam de um montante maior de capital daqui a alguns meses, ela investiu essa sobra num veículo para venda posterior. Era uma loucura e os menores de trinta anos nem imaginam como foi sobreviver nesta época e o pior é que foi o período de maior concentração de renda da história, pois os “ricos” tinham como proteger o seu dinheiro e os de baixa renda tinham que fazer muitas artimanhas, verdadeiras acrobacias.
         Tudo isto acontecia porque os governos gastavam mais do que deviam, emitiam dinheiro sem lastro e cometiam erros terríveis como os planos: Cruzado e Collor, congelamento de preços e salários, resgate da poupança e etc. O plano Real, que comemora 20 anos, trouxe o controle sobre a inflação, recuperação do poder aquisitivo da população e colocou o país nos trilhos do desenvolvimento. É preciso administrá-lo com seriedade, com a inflação dentro da meta e sem truques nas finanças públicas.
         Hoje quando vou à Campinas com a família, é para programas muito mais interessantes do que fazer compras para proteger o meu parco capital.

Sérgio Lordello



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