quinta-feira, 15 de maio de 2014

Carinho negado

         Primeiro minha mãe servia o meu pai, depois a cada um dos filhos numa sequência rotineira, não necessariamente por idade ou sexo, para finalmente ela fazer o seu próprio prato. Todas as refeições e, principalmente ao jantar, a presença era obrigatória e só se iniciava após a chegada de papai, mas antes já deveríamos estar de banho tomado, vestidos, calçados e de cabelo penteado. Fico imaginando o trabalho dela com os quatro moleques e as duas meninas, para deixar-nos todos em ordem.
         Não sei como ela conseguia dar conta de tudo. As tarefas eram muitas: cuidar da roupa daquele bando, aprontar as refeições, limpeza da casa, ajudar nos nossos deveres escolares, separar as brigas, por algum de castigo. Até teve algumas ajudantes como as Marias, as Vandas, além dos fiéis fornecedores que passavam na rua, com seus veículos puxados a cavalos como o padeiro da tarde, o verdureiro da manhã, o leiteiro da madrugada. Mas os alimentos não se encontravam nas prateleiras dos supermercados, o frango era vendido vivo, a manteiga se fazia da nata do leite puro de vaca. Além de tudo isso alfabetizava, com zelo, seus alunos do Grupo Leovegildo.
         A disputa pelo carinho do seu colo era intensa, mas me privilegiava por ser um dos caçulas, bastava alguma manha e já vencia a disputa ouvindo sempre –“não vê que ele é pequenininho ainda?”-, quando alguém adoecia então não havia para mais ninguém: chá com bolachas, suco de frutas batido na hora, um cafuné na cabeça, um pedido da comida que mais gostava.
         O importante era ter a sua atenção disponível, repartida não importa, para poder contar as coisas alegres e as tristes também, dividir com ela as conquistas, os sonhos em conversas intermináveis. Quantos conselhos, ensinamentos, reprimendas quando necessárias, castigos quando merecidos. Mas aos poucos, ela foi conseguindo deixar as marcas de uma verdadeira família impressas no nosso caráter, dando um formato padronizado nas nossas ações, comportamentos, decisões e na maneira de agir de todos os seus filhos.
         Nesse mundo atribulado de hoje, onde o que interessa é o aqui e o agora, com exemplos cotidianos na mídia, onde um filho atende um projeto momentâneo de vida de um casal, depois resta apenas satisfazer as necessidades materiais do mesmo, muitas vezes quando possível. Fico pensando nas conversas com alguns alunos meus, de forma sempre crescente, sobre os desencontros dos pais, dos alternativos e inconstantes membros de suas novas famílias e imagino quando poderão fazer uma manha e pedir:
- “Mãe eu só quero um colo e sentir o seu calor”

Sérgio Lordello



Um comentário:

Bruna Jacon disse...

Parabéns! Muito bonito o que escreveu, me lembra você... ;* Te amo.