sexta-feira, 17 de maio de 2013

Inacreditáveis coincidências



         - Sr. Marcos, desculpe-me ligar aí em Ribeirão, mas arrombaram a janela da sua casa e roubaram algumas coisas. O pior é que o vigia os ouviu falar que vão voltar.
         Nem deu muito tempo, ainda de manhã, acompanhado do sogro, chegou para dimensionar os estragos, uma maneira de reparar a esquadria, quebrar o galho até quando voltasse, com a família, na segunda-feira e conseguir consertar em definitivo. Encostou uma mesa, empurrou um armário de encontro, colocou algumas panelas em pontos estratégicos e duvidou das palavras do ladrão. Por via das dúvidas pediu ainda que seu estagiário, depois do namoro, dormisse lá.
         Lá pela meia-noite, o menino, após despedir-se da namorada, saiu dos altos da Vila São João e foi ajudar o patrão e ex-professor. Casa toda apagada, entrou, fez uma revista meticulosa. Tudo em ordem ligou a televisão, desembrulhou o lanche que comprara e passou a degustá-lo. Antes tirara a roupa e ficara só de cueca para não amassar suas vestes com as quais iria à missa pela manhã. De repente escutou, vindo lá de fora: - “Ô safado sem vergonha, vem aqui fora que você vai ver”.
         “Pronto, os caras voltaram” pensou consigo, apagando as luzes e deixando tudo numa penumbra. Seu coração acelerou, o suor começou a escorrer pela testa e quando percebeu que era mais de uma pessoa a lhe dizer impropérios, resolveu ligar para a polícia. Esperou, esperou e nada do socorro. Abriu uma fresta na janela da frente e nada. Começou a rezar, abaixou o som da TV, pegou uma toalha para enxugar o suor, mas os xingamentos continuavam e parecia agora que a quadrilha toda estava a sua espera.
         Telefone de novo na mão e fez um apelo desesperado: “pelo amor de Deus, os caras vão invadir a casa e me pegar aqui dentro, eu vou morrer sargento”.  Então o policial, percebendo algum equívoco na situação, orientou-o para que novamente abrisse a janela que estaria uma viatura defronte a casa e que ela iria acionar o giroflex, depois abrisse a porta e, com as mãos para cima, saísse em direção aos guardas.
         Lá fora, ao lado dos policiais, estavam pelo menos uns cinco vigilantes noturnos da região, que haviam chamado a Polícia pensando que eram os ladrões que haviam voltado para completar o roubo.
         Hoje ele é um radialista famoso na cidade, com um programa muito ouvido pela população, há muitos anos. Mas o que ele não admite mesmo, dizem às más línguas, é que no outro dia teve que passar em casa trocar uma peça de roupa, antes da missa.

Sérgio Lordello

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