quinta-feira, 18 de abril de 2013

Conversa esquisita




         Ninguém quer falar no assunto, principalmente quando se trata de nós mesmos. Mas aconteceu, meio sem querer. Os irmãos reunidos no aperitivo de todo sábado na casa do Celso, todos com mais de sessenta anos e foi inevitável: -“Alguém tem plano funerário ou sabe onde ser enterrado quando a hora chegar”?
         O mais velho engasgou com um petisco, o Paulo Marcelo virou o copo de uma só vez e eu disfarcei fingindo que o assunto não era comigo. Na verdade nós vamos empurrando com a barriga, deixando o tempo passar, pensando que aquele dinheirinho da poupança pode cobrir estas despesas. Depois de alguma discussão, os irmãos me encarregaram (sempre sobra para o coitado do irmão mais novo) de pesquisar o assunto e trazer um orçamento detalhado do “ato final”.
         Entrei na primeira empresa e, diante do sorriso da atendente, fui claro: -“Quero saber quanto custa para morrer”? Ela então discorreu sobre todas as possibilidades, os direitos, os possíveis problemas, as taxas que porventura haveria. Depois, gentilmente, levou-me na sala ao lado, onde havia vários modelos de urnas com ou sem visor, umas coloridas, outras discretas e até uma pintada com as cores e o distintivo do Corinthians (valha-me Deus!).
         Na véspera do encontro enviei-lhes o seguinte e-mail:
         “Depois de pesquisar nas empresas especializadas informo-lhes que nos restaram três planos  a seguir:
a)     Vapt-vupt (morri e agora?) – pagaremos um determinado valor pela urna, translado, velório, cafezinho e documentação. Tem uma taxa de sepultamento a ser paga no cemitério.
b)    Horas Extras (não desocupar a moita) – contribuiremos com uma mensalidade eterna e teremos todos os direitos da primeira opção, extensivo a pais, sogros, filhos, vizinhos até a hora que podarem a moita. Atenção: tem um prazo de carência e não poderemos falecer neste período.
c)     Sumiço no Corpo (não deixar rastros) – modesto valor por quilometro rodado no translado até o cemitério da vila Alpina, pagar taxa de cremação lá com direito a uma lata de cera Parquetina com o que sobrou.
Na sexta comentei com o pessoal lá do boteco, imediatamente o André e o Balanga levantaram-se e foram embora com medo do assunto. Já o Stanley decidiu que vai pedir que espalhem os seus restos num shopping, assim terá a visita semanal da esposa.

Sérgio Lordello

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