quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

"Esse cara sou eu"

(www.radioemrevista.com)


         Você até que tentou disfarçar, mas pensa que não a vi enxugando pequenas lágrimas que insistiam em escorrer de seus olhos durante a música no show da última terça? Mesmo eu relendo o jornal que chegara naquela manhã, deu bem para acompanhar como a letra e a interpretação do cantor mexiam com você.
         Admito que o tempo em que já estamos juntos, as mazelas da vida e a confusão do dia a dia, faz a gente esquecer-se de “pensar em você toda hora” e nem mesmo “contar os segundos se você demora”. Eu bem que tento ficar “todo o tempo querendo te ver” e até confirmo “que já não sei ficar sem você”, mas a roda-viva do cotidiano não permite que eu demonstre.
         Você, por favor, desculpe-me, mas eu chego tão cansado das minhas aulas, que não vejo a hora de comer alguma coisa, tomar um banho e cair no sono, pois amanhã tem mais e dificilmente vou “chamá-la no meio da noite para dizer que te amo”. Esse cara não sou eu.
         Sei que é uma delícia “que depois do amor você se deite em meu peito”, que fiquemos “acariciando os cabelos, falando de amor ou outras coisas e causando calor”. Mas com o pouco tempo que nos resta juntos, temos que dividi-lo com os filhos que nunca desconfiam em dar um espaço para os pais, agora as netas que nos absorvem integralmente como você, de manhã, vai “acordar feliz, dar um sorriso e ainda dizer”: “esse cara é você”?
          Sabe, fica difícil para eu concorrer com ele. Suas músicas e letras são tudo que eu gostaria de falar e fazer para você, mas nossa realidade é outra, mas mesmo assim, aqui sobre as estantes da nossa sala vejo uma foto do dia em que, de hora em hora, lhe enviei buquê de rosas ou uma segunda, do músico que chegou sem avisar para fazer-lhe uma seresta.
         Acho que só tenho o dia a dia, o cotidiano para dizer tudo o que está escrito na letra daquela música quando, por exemplo, toda manhã você desce as escadas sentindo o cheiro de um café quente ou quando aos domingos pode acordar tarde sem se preocupar com o que vai ter para o almoço. Quero que saiba que também estou pensando em você (família) quando escolho tipos e marcas de produtos no supermercado ou trago, á noite, alguma coisa que você gosta, sem avisar. Aí sim, esse cara sou eu.
         Posso até demorar em trocar aquela lâmpada que você me pediu, ou mesmo arrumar na hora a torneira a pingar, mas todas as tardes estou esperando a sua neta na porta da escola, todas as noites preparo eu mesmo o jantar. Aí sim, esse cara sou eu.

Sérgio Lordello    


Um comentário:

Aloisio De Lucca disse...

Caro Sérgio Lordello.
Sensacional e gratificante essa sua crônica "Esse cara sou eu". Queria eu ser o cara a escrever tão lindo e incisivo texto.Não é inveja não,é puro reconhecimento daquilo que é belo e reconfortante nas crônicas que você escreve.Parabéns, Aloisio.