segunda-feira, 9 de julho de 2012

O sonho de Ícaro

(dricabaiana.blogspot.com)


         Acho que era intriga dos meus irmãos, mas eles sempre disseram que quando eu era ainda bebê subia sempre em cadeiras, móveis e caia, batendo a cabeça. Talvez por isto crescesse com verdadeiro horror a altura. Por conta disto, por exemplo, desde quando o Nosso Clube inaugurou a piscina, nunca passei do primeiro trampolim. Nas brincadeiras em árvores sempre o galho mais baixo era o meu preferido e subir em telhados era uma opção inexistente para mim. Avião então, nem pensar.
         Mas quis o destino que meu irmão mais velho fosse trabalhar no aeroporto de Viracopos numa função administrativa, mas para os meus amigos era ele quem liberava os voos, montava as escalas e praticamente “mandava” em tudo. Panair, Panam, Vasp eram nomes que vivia no meu cotidiano, assim como DC-10, Constellation, Boeing 707, Electra e outros. Algumas vezes ele trazia o que hoje chamamos folder de companhias e suas aeronaves e eu mostrava satisfeito para a turminha da rua.
         Mas o medo de andar em avião só fazia aumentar. Certa vez, já formado, o Carlos Leite quis me levar de avião para Pouso Alegre para resolvermos um problema de pavimentação. Saí muito tempo antes, de automóvel, e fiquei esperando por ele lá. Não tinha jeito, nem amarrado subiria num avião.
         No entanto chega uma hora que a gente tem que enfrentar os seus medos. A oportunidade apareceu quando meus alunos me convidaram para ir com eles para Porto Seguro, iriam de ônibus e eu falei que iria, mas de avião. Anunciei quando ainda faltavam dois meses, daria tempo de me preparar. Seis deles perguntaram se poderiam ir juntos, pois seria o primeiro voo deles, lógico que concordei e os estimulei, dizendo ser muito seguro.
         Naquela semana fui até Congonhas e fiquei um tempo grande vendo pousos e decolagens só para me acalmar. No dia, acompanhei meus pupilos no check-in, na sala de espera, embarcamos e, como responsável pelos mesmos, cedi meu lugar na janelinha. Na hora da decolagem lancei mão do Estadão e não desgrudei os olhos. Eles fazendo a maior festa, descobrindo as paisagens aéreas da cidade, até que um perguntou-me:
         - Professor, que estádio é aquele lá embaixo?
         Dei uma olhada rápida de no máximo cinco segundos, falei que era o Morumbi (?) e fechei os olhos para continuar rezando.

Sérgio Lordello


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