segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Estou ficando velho


(sc5.com.br)


        Quando se é jovem parece que o assunto não é com a gente. Só quem envelhece são os pais dos nossos amigos, os professores, aquele vizinho antigo da rua. Mas de repente você vai numa festa da escola de seu filho e um dos seus coleguinhas, que está de carona, chama você de “tio”. Primeiro finge que não é com você, mas com a insistência, começa a olhar torto para o moleque e, na primeira oportunidade, dá-lhe um chega mais.
         Com o tempo, vamo-nos acostumando. Mas, certo dia, entramos numa loja para comprar alguma coisa e, diante da jovem e bela vendedora que se aproxima, nós ajeitamos a camisa, arrumamos o cabelo e ela nos coloca no devido lugar: - O que é que o “senhor” deseja?
         Os sinais são evidentes, mas não percebemos o óbvio. A formatura do colegial da filha, as agruras de seu vestibular, a presença daquele intrometido namorado no banco traseiro do seu carro quando você vai levá-la para a sua primeira república numa cidade distante. E o pior de tudo é ver sua mulher tratá-lo bem. Casamento hoje em dia nem conta mais, pois de repente você é informado que sábado deve vestir um terno e ir ao cartório para a cerimônia.  Agora o que derruba mesmo é saber que sua “menininha” vai ser mamãe. Não, avô não! Mesmo que algumas colegas, sensíveis ao seu momento, tentem consolá-lo: -“mas você é tão novo ainda!!!”
         Pois é, cotidianamente os traços físicos vão deixando claro o que a mente não quer admitir. Uma barriga que insiste em se avolumar, o cansaço em subir aquela escada cada vez mais íngreme, meias cada dia mais difíceis de vestir e a testa aumentando sempre de tamanho. E para nós homens é ainda pior, pois começam a crescer os pelos, não nos lugares convencionais, mas no nariz, na sobrancelha, na orelha. Na verdade as limitações físicas crescentes vão dando indícios de que resta bem menos tempo para usufruir do que aquele que nós já curtimos.
         Inconscientemente passamos a tomar atitudes que são reflexos desta situação. Por exemplo: recentemente morreu o nosso cão chamado Teddy, depois de um convívio de quinze 15 anos. Após curtirmos um período de tristeza, as filhas e as netas sugeriram que adotássemos um novo cachorrinho. Depois de refletirmos muito, minha esposa e eu achamos melhor não acatarmos a ideia, pois existe o risco de uma delas terem que assumir a responsabilidade de cuidar do mesmo.
         Sexta feira passada, pedi ajuda à filha mais velha para escolher um óculos escuro com lentes, coisa que há muitos anos não usava. Depois de discorrer a ela para observar valores da armação já que a lente seria multifocal e, portanto cara. Como sempre, aquele que ficou melhor era de uma grife com preço incompatível com meu salário de professor, mas, após uma séria reflexão e duas horas pedindo um desconto, concluí que, por ser este, talvez, o último óculos que compraria na minha vida, valeria tamanho sacrifício.
         Agora de uma coisa ainda não me conscientizei: ter um plano funerário. De jeito nenhum.

Sérgio Lordello
Professor

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