quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Uma pessoa impar


                 Não é possível. Na última sexta-feira fiquei pasmo quando soube que finalmente ele assinara o seu pedido de aposentadoria. Depois de muitos anos convivendo com ele, sempre pensei que nunca deixaria as salas de aula, que seria um daqueles que só sairiam por imposição da idade. E olha que sua carreira iniciou-se no final dos anos sessenta no Pró Cotil, passou pelo Senai, rede estadual, Acadêmico e Cotil. Foi agraciado com troféu Fumagalli e premiado pela Câmara Municipal de Limeira.
         Por toda a sua história, eu diria que é conhecido por mais da metade da população de Limeira e região. Em todo lugar que íamos (colegas do Cotil) em nossas férias ou em escapadas nos feriados, sempre tinha alguém que o reconhecia. Foi assim num julho qualquer, na barranca do rio Paraná, do lado Mato Grosso, estávamos tomando uma cervejinha, quando um barco passou e ouvimos alguém gritar o seu nome em alto e bom som. Da outra vez foi aqui pertinho, na Cascata, chuva que Deus mandava, e de repente entrou no boteco um grupo de quarentões de Rio Claro, todos ex-alunos dele, saudando-o.
         Não sei ainda se foi exagero, mas o Paulo jura que é verdade. Em uma das suas viagens à Europa, há quase oito anos atrás, em plena Praça de São Pedro, no Vaticano, após a benção do papa João Paulo II, ele diz que viu Sua Santidade acenando e escutou dos alto falantes do Palácio:
         - Brasiliano, brasiliano, vieni qui. Dov'è  Zaccharias, perché le mie sorelle attendono notizie di lui. (Brasileiro, brasileiro, venha cá. Onde está o Zacharias? Minhas freiras esperam por notícias dele).
         Exatamente, Luiz Carlos Zacharias. Uma pessoa ímpar, ou, eu diria em sua própria linguagem profissional, um número primo, único. Sempre solícito, ministra mais aulas substituindo colegas que as suas próprias. Certa época assumiu a direção da escola, cuidava da parte pedagógica e preocupava-se muito com os alunos. Quando eles aprontavam alguma, prontamente requisitava-os para uma conversa e ficava horas dando conselhos, chamando a atenção deles, antes de comunicar aos pais. Pois saibam que sua estratégia deu certo, pois o que os alunos menos queriam era permanecer um longo tempo na sua sala ouvindo os seus sermões e todos então passaram a se comportar.
         Ele tem um apego muito grande por suas coisas, dificilmente se desfaz das mesmas. Por exemplo, a sua velha Brasília amarela ainda continua estacionada no fundo do seu quintal, coberta, deixando o tempo corroer toda sua lataria. Mas curioso mesmo são os seus galos. Criação que começou por acaso com um frango que ele não quis se desfazer, daí apareceram outros, que não quis matar e o resultado é que hoje o seu plantel reúne 12 galos e somente 4 galinhas poedeiras. Elas, segundo dizem as más línguas, já elaboraram um Boletim de Ocorrências, por assédio e trabalho escravo, invocando a Lei Maria da Penha contra os galos. E ele foi incluído como co-responsável direto.

7 comentários:

Dan disse...

Sérgião, que nostalgia ao ver este post... Sou uma ex-aluna do Zacha e gostaria muito de revê-lo. Você pode me passar algum contato dele? Abraços

Carlos Nascimento disse...

Zacha simplesmente um grande mestre!

Andresa Vaz Freitas disse...

Realmente único!
Muito bom saber que está se aposentando. Sua missão está cumprida, agora é só curtir!
=)

Obrigada por me fazer lembrar desse mestre!
E sim, quem pisou no cotil já ouviu falar dele!
=)

Flavia Mansur disse...

Figura ilustre... Sdd desse professor, diretor...
Mto bom seu post.

Dani disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Dani disse...

Zacha, que saudades eu sinto da sua aula!!! O Zacha é uma pessoa única...em suas aulas no Cotil, eu olhava para a lousa dele e pensava: o q é isso? Não entendo nada...mas, com o seu jeito sempre pronto para ensinar, ele nos explicava o conteúdo...Nunca me esqueço do 1º dia de aula com ele...ele disse assim: Informática, vcs pensam que são os bons, os melhores do cotil...mas, na minha aula vcs verão q não sabem nada....kkkkkkkkkkkkk...dito e feito!!! Para mim, ele sempre foi mais que um professor, foi um grande amigo...sempre me ajudando e aconselhando qdo necessário...um exemplo de ética, educação, simplicidade (pois, apesaar de ser um gênio, sempre nos ensinou de forma mto humilde), amizade, companheirismo...um exemplo de vida!!! Palavras nunca serão suficientes para definir o nosso tão querido Zacha!!! Obrigada por tudo professor!!! Boa sorte e toda a felicidade do mundo para vc nessa nova jornada!!! Com carinho, Daniele (IND 05-07)

A Moça. disse...

Ah Zacha! Só de saber que esse mestre vai-se embora já me bate uma tristeza... Para mim, mais que professor, ele será sempre um exemplo de educador. Com seu sorriso, escondendo cálculos infinitos e precisos, o Zacharias vai deixar saudades nas salas de aulas e nas vidas de muitos de nós, alunos. Obrigada, professor, por tudo: desde as aulas de matemática até os conselhos e sermões - estes, extremamente importantes para a formação moral de cada um de nós que te ouviu.
Como disse a Daniele, "Toda a felicidade do mundo para você nessa nova jornada!".
Com carinho e já com saudade, Thaís.