segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Eu preciso mudar

        Lembro-me da cena como se fosse hoje. Meu pai, ao dar ré em seu veículo, raspou no carro ao lado, fazendo uma leve marca no seu pára-lama.  Desceu, olhou por todos os lados, mas não apareceu nenhuma pessoa. Aliás, poucos perceberam o incidente. Não se fez de rogado, apanhou um papel, identificou-se, anotou o número de seu telefone, prontificou-se a custear o reparo e colocou-o no pára-brisa.
         Anos mais tarde, num sábado, o “Bastião da Macife”, por um descuido, bateu na traseira do meu carro, amassando o pára-choque.  Desculpou-se, assumiu o reparo e seguimos os nossos destinos. E não é que à tarde, ele bateu a minha porta (não sei como descobriu) e insistia em deixar o seu automóvel comigo até o termino do conserto.
         Estas atitudes definem o caráter das pessoas. Remontam aos valores de pessoas sérias e que têm plena consciência de até aonde vão os seus direitos e onde começam os dos outros. Foram estes tipos de atitudes que nortearam a minha formação.
         Mas agora, prometo a mim mesmo: eu vou mudar. Depois de ver o Sarney distribuir empregos para seus familiares, após o caso do castelo, o mensalão, dólar na cueca, propinas, bolsas de estudo para parentes, retirada de multas... Não, chega. Vou ter que mudar. Estou desatualizado. Como ensinar esta nova realidade aos meus alunos?
         A partir de hoje não devolvo mais o carrinho do supermercado; vou fazer como todo mundo e colocá-lo atrás do carro do vizinho, no estacionamento. Se estiver com pressa, estacionarei na vaga dos idosos. Dar lugar a uma grávida no ônibus, nem pensar. Devolver a bola da molecada que caiu no meu quintal então, só no outro dia, quando sair. Dízimo na igreja, pode desistir. Respeitar pedestre fora da faixa, de jeito nenhum. Furar a fila, a partir de agora será uma constante. Abrir a porta para uma mulher passar então, será coisa do passado.
         É isto mesmo. Assim será. Eu prometo
         Mas, pensando bem, talvez não fosse melhor esperar um pouquinho mais para mudanças tão radicais. Quem sabe aquelas pessoas se conscientizam. Ou talvez o nosso verdadeiro papel aqui seja exatamente este: o de mostrar a elas que quando votamos neles, acreditamos em valores, caráter e ética. Elas haverão de perceber, um dia, o quanto significa aquele voto que colocamos naquela urna, simples, singelo, humilde. Com certeza não é uma procuração para torná-los impunes.



Sérgio Lordello

Um comentário:

A Moça. disse...

Mais um texto maravilhoso. Parabéns, professor.
É preciso provar que educação, "valores, caráter e ética" ainda existem e, espero, prevalecem.
Um abraço,
A Moça.