segunda-feira, 19 de setembro de 2011

A loira do supermercado


         Noite de sábado, sonolenta, cidade vazia por conta da Festa do Peão, poucos carros circulando. Saí para comprar algumas coisas no supermercado, para complementar o almoço de domingo e tinha todo o estacionamento para escolher onde parar. Os caixas já olhavam para seus relógios contando os minutos faltantes para o fechamento, cansados de um dia inteiro de labuta. No açougue e na padaria os funcionários já haviam limpado tudo e guardavam os últimos utensílios para esperar o dia seguinte.

         Poucos fregueses circulavam pelas gôndolas atrás de produtos, a maioria deles homens sozinhos que, com certeza, assim como eu, foram intimados (ou expulsos de casa) pelas suas mulheres para a busca dos ingredientes faltantes. E, lógico, como uma espécie de vingança silenciosa, todos percorriam o setor de carnes e apetrechos de churrasco, pensando como seria bom fazer aquilo em vez da macarronada e frango que a sogra pedira para aquele domingo.

         Então, como por encanto, ela surgiu. Assim do nada, com seu quase 1,80 de altura, loira, cabelos soltos, compridos, um corpo escultural, um vestido levemente avermelhado, curto o necessário, transparente o suficiente, meias pretas sensuais e sapato de salto alto. Com idade o bastante para ser dona de si mesma, decidida a entrar num ambiente, sozinha, tendo noção exata das emoções que iria despertar e sair com a certeza que tripudiaria sobre todos nós homens ali presentes.

         Fez-me lembrar de uma comemoração de meu aniversário, ali na pracinha, em frente ao Barzão, quando um conhecido insistia em não atender aos telefonemas de apelo da jovem esposa para ir embora, pois tinham compromisso mais à noite. Então ela não se fez de rogada, apareceu lá, com um shortinho bem curtinho, um bustiê, uma sandália trançada no tornozelo e sentou-se junto a ele para comemorar também. E não sei por que, em menos de cinco minutos, ele mudou de ideia e foi-se.

         Mas, continuando sobre a loira, ela veio caminhando como uma felina atravessou devagar todo o supermercado, passou por nós e todos seguimos cada um dos seus passos. Alguns de rabo de olho, outros fingindo escolher algum produto, mas nenhum de nós passou incólume sobre a sua silhueta. Pegou algumas coisinhas, perguntou sobre outras e foi embora. Simples assim.

         Ainda não sei se foi um sonho, um delírio, uma fantasia, ou mesmo um devaneio. Mas tenho a nítida impressão que tudo aquilo foi real e não fruto da minha imaginação. E vocês devem estar se perguntando como estou escrevendo isto aqui na coluna. E minha esposa? Pois é, hoje, quinta feira, feriado, estaremos passando o dia fora e já pedi para a Maria, nossa empregada, para dar um sumiço no jornal. Pois se alguém contar a ela, com certeza, terei que transferir minha cama para o sofá, por um longo período.



Sérgio Lordello

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