sábado, 3 de setembro de 2011

Brincando com a morte


(Peça: Velório para morrer de rir - UFJF)

        Que um dia ela virá, isto ninguém duvida. É a primeira e única certeza que temos na vida. E assim como em outros momentos da nossa existência, a morte tem também um cerimonial próprio definido para as despedidas do falecido. Por exemplo, até os anos 80 o velório se realizava na casa da família e para atravessar a madrugada “bebendo o finado”, enquanto a família, ou melhor, as mulheres, faziam sala para as visitas, nos fundos, os homens disputavam uma partida de cacheta, regados a uma cachaça saborosa.

         Mesmo agora, coisas acontecem neste cerimonial que se não fosse pelo momento triste e de respeito, seriam engraçadas.  Não me esqueço do velório do meu pai, em que por motivos que até hoje não entendi, nós, da família, não tínhamos nenhum relacionamento com os seus irmãos, oriundos do segundo casamento do meu avô. Pois bem, madrugada fria de julho, aproximou-se uma mulher completamente desconhecida por mim que se apresentou: “Meus pêsames, sou sua tia, irmã do seu pai. Muito prazer”. Só vim a começar compreender alguma coisa quando, no final da cerimônia, os membros da família se despediram um do outro, marcando um futuro encontro para o próximo enterro.

         Interessante mesmo foi o que aconteceu com um vizinho. Pessoa muito querida por todos, um profissional renomado e muito respeitado por toda comunidade. Até seu visual colaborava para isto, sempre com roupas impecáveis, dono de um bigode vasto e bem cuidado. Vitimado por uma doença passou a ultima semana internado, mas veio a falecer na madrugada. O pessoal da preparação do corpo ligou para um dos filhos para saber se poderia barbeá-lo, o que foi liberado. E não é que na hora do velório, todos que se aproximavam, questionavam:

 - Mas o seu Pepe está diferente, esquisito!

Foi então que a família percebeu que o velho bigode foi raspado e o falecido, na hora de sua despedida, ficou sem a sua marca registrada.

Agora diálogo estranho que, se o momento não fosse trágico, seria hilário, foi o que aconteceu entre nós, irmãos, logo após o momento da morte de nossa mãe. Com 89 anos, ela resolveu partir. Internou-se no hospital, chamou todos os filhos, despediu-se um a um,  até esperou  minha chegada, pois não estava na cidade e foi-se em paz. Pois bem, na frente do necrotério, esperando a liberação do corpo, começamos a fazer uma lista das conhecidas que deveríamos avisar do acontecido. Devido a sua longa idade, o diálogo foi mais ou menos assim:

- A dona Helena?

- Faleceu no começo do ano.

- E a Dona Odete?

- Tem Alzheimer e já não sai mais de casa.

- Tem a Maria, empregada da mãe?

- Aproveita e pede a ela que traga a carteira de trabalho também...



Sérgio Lordello

Um comentário:

João Coppi disse...

Hilário - muito bom. . . sem contar que em velórios e normal ouvir: "o falecido era uma pessoa tão BOA. . ." rs rs r s