quinta-feira, 7 de julho de 2011

Quando tudo dá errado



(blogers.com.br)

        As crianças já estavam naquela fase de dormir na casa das primas ou das coleguinhas. Também quem me dera, até então foi um período em que nos dedicamos totalmente a elas e nos esquecemos da vida de um casal, dos momentos que devem ser vividos a dois. Ainda bem que as duas já dormiam em seus quartos, mas qualquer barulho, gemido, ou tosse e saíamos correndo para ver o que estava acontecendo. Era uma dedicação em tempo integral, principalmente por parte dela.
         Aniversário de casamento se aproximando e resolvemos desfrutar aquela data como nos tempos de namorados, inteirinha para nós. Um jantar num restaurante e uma noite inédita num motel, até então algo proibido. Levamos as crianças para a casa de uma das tias e partimos para uma noite de deleite. Primeiro um jantar discreto, demorado, com juras sussurradas nos ouvidos, palavras de carinho, uma rosa talvez. Mas os garçons e o cozinheiro resolveram conspirar contra o clima, por conta de uma Festa do Peão que a Prefeitura realizava nas proximidades do restaurante. O prato foi o mais rápido já elaborado, as cadeiras já começavam a ficar de pernas para o ar, para facilitar a limpeza no outro dia.
         Naquela época ir a um motel representava a quebra de um paradigma. Era um assunto que só revelaríamos aos amigos mais íntimos e olhe lá. A curiosidade por saber o que lá encontrar era muito maior. A visão de uma cama redonda com luzes coloridas piscando à sua volta, lembrou-nos do filme “Contatos imediatos”, parecia uma nave alienígena pousando no quarto.
         Passado o susto e por conta de uma onda de pernilongos que invadira a cidade, levei e coloquei um aparelho repelente de insetos na tomada para assegurar uma noite “tranquila e reparadora”, como afirmava o fabricante. Depois de algum tempo aprendendo a dosar a iluminação, obviamente a mais discreta possível para enfrentar aquela infinidade de espelhos, após colocar um som adequado para o momento e saborear alguns goles de um bom vinho varietal, começamos a sentir um cheiro forte de queimado. Preocupados, corremos tentando descobrir a origem daquilo e percebemos que a tomada onde eu colocara o aparelho repelente era 220 volts e ele 110.
         Parece que os anjos estavam conspirando contra a nossa comemoração. Depois de expulsar a fumaça, abrir todas as janelas e vidros, avisar a portaria que estava tudo em ordem, voltamos a saborear o vinho e degustar o queijo que pedimos. Madrugada já, e o exército de pernilongos já mandava as suas esquadrilhas ao ataque. Era uma ofensiva severa e sem trégua. Imediatamente levantamo-nos, juntamos as coisas e voltamos para o aconchego do nosso lar. Finalmente conseguiríamos terminar a noite de forma “tranquila e reparadora”.
         Mal adormecemos e tocou o telefone. Era a Jacira, minha cunhada, toda preocupada e perguntando senão poderíamos levar a minha sogra ao hospital, pois ela não estava passando bem.
         Depois daquilo, já tentei inúmeras vezes tentar reeditar aquela comemoração, mas não há jeito de convencê-la.

Sérgio Lordello

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