sexta-feira, 6 de maio de 2011

Dia das Mães




Eu não entendia


         -Oh mãe, há quanto tempo eu não venho aqui. Estava com saudades de nossas conversas. Prometo aparecer mais vezes durante o ano e não apenas nesta data. Na verdade a vida é que está corrida, está difícil pagar a escola das crianças e a gente tem trabalhado muito para poder dar uma vida digna a elas.

         - Sabe que nasceu a filha do Junior no mês passado, o da Marcela há dois meses e tem mais um vindo, da Fabiana? Pois é, agora a senhora vai atingir a marca de 15 netos e 12 bisnetos. Imagine uma foto com todos eles ao seu redor, como aquela, na Páscoa, em que você estava rodeada por todos os seus netos, pintados de coelho, e a senhora colocou em cima da cristaleira na sala. Tenho uma cópia dela lá em casa!

         - Por falar em casa, terminei a reforma e transformei aquele quarto no térreo, que a senhora ficava quando vinha passar o final de semana lá, num escritório, com computador, uma pequena biblioteca e uma cadeira bem confortável. Parecido com o que havia no sobradão, só não tem o cofre, porque não preciso. Como era bom lá, não? Lembro-me da senhora preparando as suas aulas com a cartilha “Caminho Suave”, mas devo confessar que os seus desenhos eram muito mais bonitos.

         - Agora o que eu não esqueço mesmo são das suas comidas. A calabresa com feijão, aquela torta de frango bem úmida por dentro, a massa de pastel, os pães caseiros. Meu Deus, quanta coisa! E os doces então: manjar de coco em formato de peixe, coberto com calda de ameixa preta, pavê, suspiro crocante, bala de coco molinha e o olho de sogra, que eu obrigava a senhora fazê-lo em todo Natal.

         - Sabe mãe, não sei se os outros já falaram para a senhora, mas a Maria Silvia mudou-se para Curitiba. Na verdade, com todos os seus filhos morando longe, cada um numa cidade diferente, ela e o Paulo estavam sozinhos aqui. Então preferiram morar junto de um deles para poderem olhar de perto pelo menos um dos netos. E que cidade é aquela, né? É dona Sylvia, os seus filhos estão ficando velhos também.

         -Bem, mãe, eu já vou indo embora antes que tranquem o portão da entrada. Pede a benção para o pai. Prometo que vou tentar vir mais vezes aqui durante o ano todo e vou aproveitar para trazer flores também.

-Não mãe, não é choro não. Estas lágrimas são simplesmente porque agora, mais velho, eu entendo o verdadeiro sentido do que é ser mãe e quanto tempo eu desperdicei isto.



Sérgio Lordello

professor

Um comentário:

marido de aluguel disse...

Que benção poder ter desfrutado de uma grande companhia, mãe.
O rosto demonstra uma pessoa firme de pouca fala, grande sabedoria, porto seguro. Sua imagem me passa a imagem do sabio quando consultado resume em poucas palavras aquilo que estamos buscando. Parabéns pelo que sua mãe foi e representa para voce. Também parabéns às nossas mulheres que são as mães de nossos filhos e que nos ajudam a realizarmos como PAIS.