sexta-feira, 27 de maio de 2011

Ando preocupado


(novohamburgo.org)

         Sabe de uma coisa, ando preocupado com a minha declaração do imposto de renda, pois desde abril, quando a enviei, meu sono já não é o mesmo. Será que ela ficará retida na malha fina só porque me esqueci de declarar os duzentos e vinte reais que recebi da Nota Fiscal Paulista? Sou assalariado e trabalho na mesma empresa há trinta anos. Há mais de dez não anexo nenhum imóvel ao meu patrimônio e só agora estou pensando em trocar o automóvel. Será que já descobriram o “puxadinho” que fiz na porta da cozinha da minha casa no final do ano?

         Fico imaginando como devem estar preocupadas as pessoas que tiveram uma grande variação patrimonial nos últimos anos, como o Palocci, que multiplicou por vinte, o valor de seus bens. Como será que ele vai explicar que seu patrimônio variou de trezentos e setenta e cinco mil reais para oito milhões nos últimos cinco anos? Puxa vida! Eu acho que ele não deve estar dormindo, pois eu, por muito menos (e ponha menos nisso), já estou tomando Lexotan.

 A retirada dele na sua empresa de consultoria foi de mais de um milhão de reais por ano ou mais de cem mil por mês, na média. E ele, como cidadão exemplar que é, deixou de atuar nela para poder estar ocupando o cargo público de ministro, cujo salário é de apenas vinte e sete mil reais mensais. Isto que é exemplo de abnegação e patriotismo: desativar uma empresa tão lucrativa, renunciar a honorários comparáveis a de estrelas do futebol para atender a um chamamento da pátria.

         Só no ano eleitoral de 2010 o faturamento da consultoria chegou à casa dos vinte milhões de reais, o que lhe permitiu a compra de um apartamento de 6,6 milhões e de um escritório de 882 mil reais. Tornado o fato público pela imprensa, o governo colocou todo o seu “exército” em ação para blindar o seu ministro e evitar que o mesmo tenha que dar explicações.

         Agora o que nos deixa indignados é que a maioria dos políticos, preocupados apenas com seus interesses, conseguiu criar e, o que é pior, manter um emaranhado de leis que permitem a eles prorrogarem, inibirem, distorcerem qualquer ação tomada pela Justiça ou pela Receita. O próprio ministro Jorge Hage da Controladoria Geral da União confirma dizendo que o Congresso não dá “nenhum sinal de disposição de votar projetos para alterar o vácuo legal existente”.

         Com isso continuaremos assistindo CPIs do silêncio cujos envolvidos garantem o direito de não falarem, esposa de prefeito que não pode ser presa, foro privilegiado, cela especial, patrimônio de políticos crescendo em progressão geométrica e gastos de campanha muito superiores aos próprios bens do candidato.

         Certo mesmo está o Ferrugem, velho pescador, amigo do Joca, morador na barranca do Mogi, lá na Cascata, que diz: “Sabe professor, aqui malha fina é somente para lambari, peixe grande arrebenta com ela”.



Sergio Lordello

professor

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