sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

O gerente do cemitério


        Ele era meu chara e cuidava do Cemitério da Saudade. Liderava os vários funcionários que a Prefeitura mantinha lá entre coveiros, auxiliares e pedreiros.         Era um daqueles funcionários dos mais dedicados. Adorava o que fazia e até nas suas horas de folga aparecia para ver como estavam as coisas por lá. Para se ter uma idéia, o seu passeio dominical incluía, depois de tomar café no Fernando, uma visita ao seu local de trabalho.
         Apesar de conviver com esta realidade pouco convencional para nós, era dotado de um extremo bom humor. Não perdia oportunidade de fazer brincadeiras com o dia a dia do seu trabalho. Todos gostavam dele e ficavam esperando sempre por suas piadas.
Mensalmente aparecia lá na Secretaria para levar o livro de apontamentos da mão de obra para conferência. Sempre distribuía bolachinhas para as meninas e dizia que pegara no tumulo do Silvinho, antes que as formigas tomassem posse.
Quando conversava comigo, eu perguntava como estavam as coisas lá no cemitério e suas respostas eram desconcertantes:
- Pois é doutor, hoje está uma tristeza só. Só tem um pobre coitado.
Ou o contrario:  - Está uma festa, doutor, tem sete no Velório e até um na Capela, a sociedade toda está lá. Tem até colunista social.
Numa dessas vezes que nos visitou, era durante a Copa do Mundo, dia de jogo do Brasil e ele foi logo se explicando: “Sabe, doutor, o cara chegou atrasado, não pagou as taxas e queria ser enterrado na hora do jogo. Nem pensar”.
Certa vez me procurou se podia liberar o conserto de uma bicicleta, pois assim ficaria mais fácil o seu deslocamento para a Secretaria, como se seus noventa e cinco quilos assim o permitissem: “Sabe a bicicleta daquele cara que foi atropelado aí na avenida, junto com a vara de pescar? Pois é, a varinha eu já estou usando no Pesque e Pague, mas a bicicleta precisa ainda de uns reparos.”
Mas a maior delas foi durante uma festa de confraternização. Num restaurante da cidade, lá estavam algumas autoridades e vários convidados. Poucos dias atrás, a cidade havia perdido uma liderança política expressiva, repentinamente.
O meu xará apareceu de terno, muito elegante e circulava entre as pessoas levando alegria com suas piadas e brincadeiras. Lógico que citou as bolachinhas da sobremesa e sua origem, mas de repente perguntou se havíamos gostado de seu terno novo? Estufou o peito, segurou-o pelas duas lapelas, mostrou seu fino corte e disse:
- Era do fulano. Você acha que eu ia deixar desperdiçar...


Sergio Lordello

Um comentário:

André disse...

Como é agradável ler suas "histórias" já adicionei o blog nos meus "favoritos" Parabéns Sergio. Logo tomaremos uma gelada no Toco, faltam apenas alguns quilos sumirem!
Um abraço

André