terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Lições que ela me deixou


          - Mas você não aceita nem um cafezinho nosso!
         Nestas ocasiões de assédio eu citava o exemplo que ela me dera desde os tempos de criança. À mesa do almoço, os seis filhos para alimentar, ela dividia o abacaxi da sobremesa, não em rodelas como se faz hoje, mas no sentido longitudinal para que todos saboreassem tanto a parte doce como a azeda da fruta.
         Para você ter idéia, mesmo nós já crescidos, pais de seus netos, ela dava um presente em cada aniversário. Era um valor em dinheiro, que o seu parco salário e a pensão do meu pai permitiam. Coisa modesta, mas o valor era o mesmo durante o ano todo, para ninguém achar que o do outro foi mais gordo. Era época de inflação e todos os irmãos ficavam na expectativa sobre qual seria o valor do meu presente, pois meu aniversário é no primeiro dia do ano, e o valor de todos os outros seria definido ali.
         Nunca a vi discutir com meu pai. Muitas vezes calava-se, esperava um tempo, conversavam no quarto ou no escritório da casa e ele, mesmo com a fama de severo, sempre não resistia as suas argumentações.
Jamais foi de levantar a voz, nem mesmo intrometia-se ou dava palpites na vida de cada um dos filhos, principalmente depois de casados, mas quando pedia para conversar com um de nós, sabíamos que o seu conselho nos faria mudar de idéia. Acho até que, se viva fosse, após uma conversa dela com o bispo, o Padre Alquermes estaria hoje cuidando apenas da catedral.
         Aos sábados fazia questão de reunir os filhos na cozinha de seu apartamento, para o bate papo e um aperitivo. Sempre fazia um quitute para agradar um ou outro. E quando alguém se atrasava, ela logo telefonava para saber o motivo. Foram vinte e cinco anos assim.
         Com este clima, ela conduziu a família. Viu seus filhos seguirem os seus caminhos sempre dentro de princípios e valores que ela nos ensinou durante todos estes anos.
         Agora fico aqui pensando com meus botões sobre esses políticos do meu Brasil: como a turma do Arruda, aqueles lá de Brasília que enfiam dinheiro por tudo quanto é bolso. Pois é, acho que o que eles não tiveram mesmo, foi mãe. Porque se eles as tivessem tido, elas, certamente, lhes teriam ensinado o caminho do bem, a dignidade, a decência e o respeito com o dinheiro público.
         Agora, se as mães deles realmente existiram, com certeza, eles as renegaram.


Sérgio Lordello
Professor




Um comentário:

Bruna Jacon disse...

Lindo!!! Muito lindo!!! Adoro essa crônica. Saudade... =*~