sábado, 13 de novembro de 2010

Um lugar sem alma

         A crônica abaixo foi inspirada no trecho de um discurso de Rui Barbosa, tão atual, que diz: “de tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto”.

         - É verdade minha amiga, está tão triste aquilo, tão cinza. Em seus corredores eu vejo pessoas, ouço ruídos, mas sinto que aquele não é mais o meu lugar. Quisera que os tempos fossem outros, pois então estaríamos todos juntos traçando planos, buscando soluções, procurando alternativas.
         Hoje eu caminho ali, mas meus passos me levam para ambientes aos quais eu não quero mais frequentar, que não quero saber que existem mais, pois podem me fazer desacreditar das pessoas.
Tento ainda, minha amiga, pensar que um dia a luz voltará a brilhar, que o vento refrescante das manhãs levará para longe os restos deste pesadelo. O sonho de acreditar nos homens ainda me faz ter um resto de esperança, mas eu sinto que a cada dia a drenam um pouquinho de mim. Parece que eles não deixam acontecer tudo de uma só vez. O fazem em doses homeopáticas para que a gente assista os indivíduos nos quais confiávamos, gradativamente, terem comportamentos nos quais jamais acreditaríamos que iriam ter.
         Uma vez, minha amiga, você os definiu como ardilosos, mas na verdade acredito que o que eles não têm mesmo é alma. Eles se apossam das coisas, se justificam e envolvem as pessoas numa trama astuta somente para manter o poder a qualquer custo.
         Mas mesmo as pessoas sem alma sabem distinguir o errado do que é certo, do que é ético, justo, nobre e o nosso papel lá é exatamente este: lembrar-lhes sempre, a todo instante, que o bem ainda está presente. Pode acreditar que ainda há pessoas que conhecem esta diferença e que elas permanecem lá para que eles não esqueçam que um dia, com certeza, alguns dos seus entes lhes ensinaram o caminho do bem, mas que eles os renegaram.
         Tenha a esperança, minha amiga, que um dia destes as cores voltarão a brilhar, o sol entrará pelas janelas, o grito da liberdade ecoará em todos os seus recantos e essas pessoas se arrependerão das coisas que fizeram. Chorarão pelas flores que arrancaram dos nossos jardins, pelas músicas que arrebataram das nossas gargantas e nós, com nosso jeito simples de ser, ainda lhes estenderemos as mãos para que aprendam o que é o perdão.




Sérgio Lordello
professor

2 comentários:

A Moça disse...

Um texto digno de aplausos. Parabéns.

Donata disse...

a moça continua: que profundo!