sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Coisa de Aluno

         Ela se despediu dos alunos e de alguns colegas, num fim de tarde, como se amanhã fosse outro dia comum na sua labuta diária. Isto aconteceu no final do ano passado. Na sua imaginação, ela estava convicta do seu dever cumprido, sabia que em todos estes anos dedicou-se ao máximo à seu ofício de ensinar aos alunos, não só os mistérios de sua profissão, mas a forma perfeita deles atenderem aos seus pacientes, com o mesmo amor que ela sempre tivera para com os seus, para com os alunos e para com os colegas.
         Desceu a escada pensando no tanto que fizera por inúmeras gerações. Quantas vezes aconselhou como mestra, chorou como mãe e vibrou como  fã, o sucesso deles. Olhou para o lado e viu um grupo de alunos na sua alegria do final do dia, arrumando as coisas para ir embora. O mesmo inspetor de alunos de sempre lhe dirigiu um “até amanhã”.
         Caminhou sozinha em direção ao seu carro, não passou pela sala dos professores por uma questão pessoal. Deu a partida no carro, fez algumas manobras e partiu solitária para descobrir como seria a sua vida a partir de agora. Sentia nos ombros o peso de sua decisão de aposentar-se. De um lado a alegria de sentir-se liberta de brigar por seus ideais, nos últimos tempos de forma tão vã. Mas de outro sentindo o seu coração partido por ver que uma página da história do Cotil estava sendo virada e ela deixaria de fazer parte da mesma.
         Na ultima terça-feira, Dia da Enfermagem, não resistiu de saudades e dirigiu-se à Câmara Municipal, onde seus ex-alunos estavam assistindo a uma palestra. Com seu jeito modesto, meio atrasada, abriu discretamente a porta dos fundos do auditório e procurou rápido um lugar para sentar-se para não se fazer notar.
         Qual não foi sua surpresa ao ver os alunos presentes levantarem-se, um a um, e a aplaudirem sem parar, gritando para quem quisesse ouvir: “volta, volta, volta”. Numa manifestação espontânea e leal que eles são capazes, sim, de oferecer, sem qualquer indução dos demais professores, quando reconhecem o verdadeiro valor das pessoas e das coisas que almejam. A sessão foi parada para que todos os presentes, entre colegas e autoridades, pudessem cumprimentá-la.
         À noite, madrugada já, o marido veio até a sala, estranhando que ela não fora dormir até àquela hora e a viu deitada no sofá. A TV sem nenhum sinal, mas percebeu em seu rosto uma tranqüilidade que há muito não via e a serenidade que só aparecia quando escutava a chave tocar na porta quando os filhos voltavam para casa. Cobriu-a com uma manta, desligou a televisão e a deixou lá mesmo.
         Enfim, ele não quis atrapalhá-la, pois ela, finalmente, saboreava o sono dos justos.

Um comentário:

gatinho disse...

Sérgio meu querido amigo

Este é o mais lindo de todos.
Ter vivido esta história traz de volta uma emoção que é impossível dimensionar.
Só mesmo vc, uma pessoa com tanta sensibilidade, foi capaz de captar em poucas palavras, numa conversa informal, toda a carga de emoção que vivi naquele momento tão especial da minha vida.
Obrigada!...

Eliane